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Acesso aberto Revisado por pares
Case Report

Osteoblastoma cervical: relato de caso*

Cervical Osteoblastoma: A Case Report*

Carolina Oliveira1,, Luísa Vital2, Francisco Serdoura2, André Rodrigues Pinho2, Vitorino Veludo2

DOI: 10.1016/j.rboe.2017.11.017.


 

RESUMO:

Osteoblastoma é um tumor primário benigno raro. Constitui cerca de 3% dos tumores benignos e 1% de todos os tumores ósseos. O objetivo do tratamento é a ressecção completa, que limita o risco de recidiva. Por se tratar de um tumor vascularizado, a
ressecção completa é, muitas vezes, difícil. Os autores descrevem um caso clínico de um paciente do sexo masculino de 19 anos que apresentava queixas de cervicalgia direita com irradiação para o ombro. O exame por tomografia computadorizada indicou uma lesão em C7 compatível com osteoblastoma. O paciente foi submetido a resseção cirúrgica após embolização pré-operatória e artrodese anterior. Aos 3 anos de seguimento, o paciente encontra-se assintomático e, até a data, sem evidência de recidiva.

Palavras-chave:
osteoblastoma; cervicalgia; embolização; neoplasias da medula espinhal.

ABSTRACT:

Osteoblastoma is a rare benign primary bone tumor. It accounts for 3% of benign and 1% of all primary bone tumors. The treatment goal is complete surgical resection. This treatment limits the risk of recurrence. As osteoblastoma is a highly vascular tumor, complete resection is often difficult. This report describes the case of a 19-year-old male patient who presented severe right-sided neck and shoulder pain. The computed tomography scan revealed a mass lesion on C7 compatible with osteoblastoma. Preoperative embolization and tumor resection were performed. At the 3-year follow-up, the patient had no restrictions on daily activities, and, to date, there has been no evidence of recurrence.

Keywords:
osteoblastoma; neck pain; embolization; spinal cord neoplasms.

FIGURAS

Citação: Oliveira C, Vital L, Serdoura F, Pinho AR, Veludo V. Osteoblastoma cervical: relato de caso*. 54(2):219. doi:10.1016/j.rboe.2017.11.017.
Nota: * Estudo conduzido no Departamento de Cirurgia Ortopédica, Hospital de São João, Faculdade de Medicina, Universidade do Porto, Porto, Portugal.
Recebido: September 16 2017; Aceito: November 21 2017
 

INTRODUÇÃO

O osteoblastoma é um raro tumor ósseo benigno primário que representa 3% das neoplasias benignas e 1% de todas as neoplasias ósseas primárias.1,2 Aproximadamente, entre 32 e 46% desses tumores envolvem a coluna.2,3 Essas lesões ocorrem predominantemente na segunda e terceira décadas de vida e no sexo masculino com proporção de 2:1 entre homens e mulheres.3,4 A dor é o sintoma mais comumente citado e, de modo geral, presente por mais de um ano antes do diagnóstico.14 O diagnóstico tardio dessas lesões está relacionado à sua baixa incidência, sintomas não específicos e exame radiológico normal durante o início da progressão da doença.3,4 O objetivo do tratamento é a ressecção cirúrgica completa, que permite a regressão total das queixas e diminui a probabilidade de recidiva.2,5

 

RELATO DE CASO

Seu histórico médico não era digno de nota. O paciente apresentava dor grave no pescoço e no ombro do lado direito há um ano, compiora à noite. A dor era progressiva, semalívio com o tratamento médico e exacerbada nos últimos 2 meses com parestesias. Ao exame, a amplitude de movimentação cervical era restrita e dolorosa. O exame neurológico não foi digno de nota. A radiografia da coluna cervical era normal. A tomografia computadorizada (TC) cervical revelou uma lesão em massa com limites bem-definidos e acometimento da faceta articular e o pedículo direito de C7, com cerca de 18,9 × 15,2 milímetros em seu diâmetro maior e sem compressão da medula espinhal, compatível com um osteoblastoma (►Fig. 1). Completamos o estudo com angiotomografia computadorizada (angio-TC) e Doppler dos vasos do pescoço, que revelaram estenose da artéria vertebral com plano de clivagem (► Fig. 2). Decidimos pela ressecção cirúrgica.

O paciente foi submetido à embolização pré-operatória um dia antes da cirurgia (► Fig. 3). No dia seguinte, o paciente foi submetido à ressecção do tumor por abordagem posterior, seguida de artrodese intersomática C6-C7 com “gaiola” preenchida por autoenxerto da crista ilíaca para abordagem anterior (►Fig. 4).

Não houve intercorrências no período pós-operatório. Uma TC foi realizada no primeiro dia pós-operatório e demonstrou a ressecção cirúrgica completa (►Fig. 5). O paciente teve alta no 5º dia após a cirurgia. O exame histopatológico confirmou o diagnóstico. Examinado 3 anos após a cirurgia, o paciente não apresenta queixas e realiza atividades da vida diária normal, sem evidência de recidiva (► Fig. 6).

 

DISCUSSÃO

O osteoblastoma e o osteoma osteoide foram descritos em 1935 por Jaffe apud Samdani et al.3 Ambos são tumores benignos hipervasculares clínica e histologicamente seme-lhantes.3,6 No entanto, o osteoblastoma apresenta características mais agressivas. Pode ser localmente agressivo e causar comprometimento neurológico devido ao crescimento expansivo. Além disso, pode sofrer transformação maligna em osteossarcoma.2,3,6

O osteoblastoma geralmente acomete os elementos posteriores da coluna.2,4,6 Embora considerado um tumor benigno, a recidiva das lesões na coluna não são incomuns e foram relatadas em 9,7 a 15% das séries de osteoblastomas espinhais.6

A apresentação mais comum é a dor cervical1,4,6 sem alívio com anti-inflamatórios não esteroidais.5 Outros sinais e sintomas comuns são torcicolo, rigidez e sensibilidade local.4

O diagnóstico é geralmente feito por TC.5 A técnica delineia a localização e o acometimento ósseo da massa.3

A excisão cirúrgica é o tratamento de escolha para o osteo-blastoma.1,2,5,7 Esse tratamento limita o risco de recidiva.5 O principal motivo para a alta taxa de recidiva é a ressecção incompleta.6,7 O planejamento pré-operatório cuidadoso é essencial.7

Como o osteoblastoma é um tumor altamente vascular, a realização de ressecções completas é geralmente impedida pelo sangramento intraoperatório extenso.2 Alguns autores recomendam a embolização pré-operatória. Esta técnica foi descrita em 1979 por Dick et al. e apud Samdani et al.3 como terapia adjunta para tumores ósseos benignos. Mais recentemente, foi utilizada com sucesso em tumores espinhais altamente vasculares.3 A embolização pré-operatória reduz o sangramento intraoperatório e ajuda a melhorar a visualização para realização da ressecção completa além de diminuir as complicações pós-operatórias.2,3

Os autores relatam um caso bem-sucedido de osteoblastoma em C7. Neste caso, os autores preferiram uma abordagem em dois estágios. A abordagem posterior permitiu a ressecção do tumor. A abordagem anterior permitiu a fusão anterior para estabilização da coluna com gaiola intersomática e instrumentação com placa anterior e parafusos. Optamos pela artrodese anterior para facilitar o acompanhamento por imagem, pois diminui o artefato de imagem nos elementos posteriores que pode dificultar a interpretação de uma possível recidiva local.

Realizamos a embolização pré-operatória, que facilitou a ressecção do tumor porque diminui o sangramento e melhora a visualização. A ressecção completa dessa lesão permitiu a regressão completa das queixas e diminuiu a probabilidade de recidiva (sem ela, a taxa de recidiva relatada é de 9,8 a 15%).6

 

REFERÊNCIAS

Yin H, Zhou W, Yu H, Zhang D, Wu Z, Liu T, et al. Clinical characteristics and treatment options for two types of osteoblastoma in the mobile spine: a retrospective study of 32 cases and outcomes. Eur Spine J 2014;23(02):411-416 Link DOI
Trübenbach J, Nägele T, Bauer T, Ernemann U. Preoperative embolization of cervical spine osteoblastomas: report of three cases. AJNR Am J Neuroradiol 2006;27(09):1910-1912
Samdani A, Torre-Healy A, Chou D, Cahill AM, Storm PB. Treatment of osteoblastoma at C7: a multidisciplinary approach. A case report and review of the literature. Eur Spine J 2009;18 (Suppl 2):196-200 Link DOI
Stern P, Dzus A, Cassidy J. Cervical spine osteoblastoma presenting as mechanical neck pain: a case report. J Can Chiropr Assoc 1994; 38(03):146-151
Hadgaonkar SR, Shyam AK, Shah KC, Khurjekar KS, Sancheti PK. Extraosseous thoracic foraminal osteoblastoma: diagnostic dilemma and management with 3 year follow-up. Asian Spine J 2014;8(05):689-694 Link DOI
Yilmaz C, Civelek E, Caner H, Aydin E, Gerilmez A, Altinors N. Osteoblastoma of C2 corpus: 4 years follow-up. Asian Spine J 2012;6(02):136-139 Link DOI
Weatherley CR, Jaffray D, O’Brien JP. Radical excision of an osteoblastoma of the cervical spine. A combined anterior and posterior approach. J Bone Joint Surg Br 1986;68(02):325–328 Link DOI

* Estudo conduzido no Departamento de Cirurgia Ortopédica, Hospital de São João, Faculdade de Medicina, Universidade do Porto, Porto, Portugal.