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Artrite séptica do ombro e do cotovelo: análise epidemiológica de uma década em um hospital terciário

Septic arthritis of the shoulder and elbow: one decade of epidemiological analysis at a tertiary referral hospital

Jorge Henrique Assunção*, Guilherme Guelfi Noffs, Eduardo Angeli Malavolta, Mauro Emilio Conforto Gracitelli, Ana Lucia Munhoz Lima, Arnaldo Amado Ferreira

 

RESUMO:

OBJETIVO: Descrever as características clínicas e epidemiológicas de pacientes com artrite séptica do ombro ou cotovelo e buscar fatores prognósticos para complicações durante o tratamento.
MÉTODOS: Foi feita uma série de casos retrospectiva com pacientes atendidos entre 2004 e 2014. As características clínicas e epidemiológicas dos pacientes foram coletadas. As complicações clínicas e ortopédicas foram identificadas e possíveis fatores prognósticos foram avaliados.
RESULTADOS: O estudo avaliou 27 pacientes, 17 com pioartrite no ombro e dez no cotovelo. A mediana da idade foi de 46 anos (IIQ 24,5; 61). Doença articular prévia foi observada em nove pacientes (33%). Uma ou mais comorbidades clínicas foram identificadas em 23 pacientes (85%). Staphylococcus aureus foi isolado em 14 casos (52%). Quatorze pacientes (52%) tiveram pelo menos uma complicação clínica e cinco pacientes foram a óbito (19%). Nove pacientes (33%) tiveram alguma complicação ortopédica. O tempo entre o início dos sintomas e o tratamento cirúrgico foi maior nos pacientes com complicações ortopédicas (p = 0,020). Em relação ao desenvolvimento de complicações clínicas, leucocitose na admissão hospitalar (p = 0,021) e presença de comorbidades clínicas (p = 0,041) foram fatores preditivos.
CONCLUSÕES: A pioartrite do ombro e cotovelo acomete preferencialmente indivíduos com comorbidades clínicas e/ou imunocomprometidos. O Staphylococcus aureus é o patógeno mais frequente no Brasil. Leucocitose na admissão hospitalar e a presença de comorbidades clínicas são fatores associados à presença de complicações clínicas. Maior tempo entre o início dos sintomas e o tratamento cirúrgico foi correlacionado a complicações ortopédicas.

Palavras-chave:
Ombro; Cotovelo; Infecção; Artrite infecciosa; Epidemiologia.

ABSTRACT:

OBJECTIVE: To describe the clinical and epidemiological characteristics of patients with septic arthritis of the shoulder or elbow and to evaluate prognostic factors for complications during treatment.
METHODS: A retrospective case series was studied with patients treated between 2004 and 2014. The patients' clinical and epidemiological characteristics were collected. The clinical and orthopedic complications were identified and possible prognostic factors were evaluated.
RESULTS: Twenty-seven patients were analyzed, 17 with septic arthritis of the shoulder and ten of the elbow. Median age was 46 years (IQR, 24.5; 61). Previous joint disease was observed in nine patients (33%). At least one clinical comorbidity was observed in 23 patients (85%). Staphylococcus aureus was identified in 14 cases (52%). Fourteen patients (52%) had at least one clinical complication and five patients died (19%). Nine patients (33%) had some type of orthopedic complication. The time between onset of symptoms and surgical treatment was longer in patients with orthopedic complications (p = 0.020). Regarding the development of clinical complications, leukocytosis on hospital admission time (p = 0.021) and the presence of clinical morbidities (p = 0.041) were predictive factors.
CONCLUSIONS: Septic arthritis of the shoulder and elbow primarily affects individuals who are immunocompromised and/or have clinical comorbidities. S. aureus is the most common pathogen in Brazil. Leukocytosis at hospital admission and the presence of clinical comorbidities are factors associated with the presence of clinical complications. Longer time between onset of symptoms and surgical treatment was correlated with orthopedic complications.

Keywords:
Shoulder; Elbow; Infection; Septic arthritis; Epidemiology.

FIGURAS

Citação: Assunção JH, Noffs GG, Malavolta EA, Gracitelli MEC, Lima ALM, Ferreira Neto AA. Artrite séptica do ombro e do cotovelo: análise epidemiológica de uma década em um hospital terciário. 53(6):707. doi:10.1016/j.rboe.2017.08.025
Nota: Trabalho desenvolvido no Grupo de Ombro e Cotovelo, Instituto de Ortopedia e Traumatologia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.
Recebido: March 31 2017; Aceito: August 15 2017
 

INTRODUÇÃO

A artrite séptica é uma doença ortopédica com incidência de 12 casos para cada 100.000 habitantes/ano.1 Dentre os pacientes com pioartrite, 8 a 21% apresentam acometimento no ombro,1-3 enquanto de 6 a 9% no cotovelo.1-3 Complicações graves podem ocorrer, como osteomielite2 e rigidez articular,4 e a taxa de mortalidade pode chegar a 11,5%.2

Existem poucos artigos que analisam exclusivamente a artrite séptica no ombro5-10 ou no cotovelo.4,11 A referência a essas articulações também pode ser encontrada em algumas séries que avaliam conjuntamente pioartrites de todas as articulações1,2 ou no membro superior.12 Além disso, poucos estudos avaliam fatores prognósticos para resultados insatisfatórios ou complicações.2,3,13

O objetivo deste estudo é descrever as características clínicas e epidemiológicas de uma série de pacientes atendidos em um hospital terciário com o diagnóstico de pioartrite do ombro ou do cotovelo num período de 10 anos. Como objetivo secundário, avaliaremos quais características clínicas e epidemiológicas se correlacionam com o aparecimento de complicações clínicas ou ortopédicas durante o tratamento desses pacientes.

 

MÉTODOS

Foi feita uma série de casos retrospectiva, formada por pacientes com pioartrite do ombro ou cotovelo submetidos ao tratamento cirúrgico. Os pacientes foram atendidos entre fevereiro de 2004 e janeiro de 2014. Este estudo foi aprovado pela Comissão de Ética para Projetos de Pesquisa sob o número 13.646.

Foram incluídos todos os pacientes com diagnóstico de pioartrite do ombro e/ou cotovelo atendidos em nossa instituição. Foram excluídos todos os pacientes que tivessem sido submetidos a cirurgia no ombro ou cotovelo previamente, desse modo excluíram-se as infecções pós-operatórias.

A artrite séptica foi definida pelos critérios estabelecidos por Newman.14 Os casos foram aqueles que tiveram presentes pelo um menos um dos critérios abaixo:

- cultura do líquido sinovial positiva;

- hemocultura positiva com cultura do líquido sinovial negativa;

- culturas negativas por uso prévio de antibióticos, mas líquido sinovial purulento na drenagem articular do ombro ou cotovelo.

Foram coletadas as seguintes variáveis dos pacientes: sexo, idade, causa da infecção (hematogênica, contiguidade ou inoculação), origem do paciente para caracterizar a infecção como comunitária ou hospitalar,15 contagem leucocitária (leucocitose foi definida como número de leucócitos sérico maior do que 11.000), níveis séricos da proteína C reativa (PCR) e a velocidade de hemossedimentação (VHS) no momento da admissão hospitalar, coloração de Gram, resultado da cultura do líquido sinovial, antibiograma, número de drenagens cirúrgicas, comorbidades, presença de imunossupressão, tempo decorrido entre o início dos sintomas e a drenagem cirúrgica, doença articular prévia, antibioticoterapia empírica, complicações sistêmicas e ortopédicas e tempo de internação hospitalar.

Análise estatística

Submetemos as variáveis contínuas à avaliação da normalidade, através do teste de Kolmogorov-Smirnov, e da homogeneidade, através do teste de Levene. Apresentamos as variáveis contínuas em médias e desvio-padrão. Mediana e intervalo interquartil (IIQ) também foram apresentados se a distribuição fosse não paramétrica. As variáveis categóricas foram relatadas em valor absoluto e percentual.

Avaliamos possíveis fatores correlacionados às complicações clínicas e ortopédicas. Para as variáveis categóricas, no que diz respeito às diferentes variáveis, a correlação foi feita pelos testes de qui-quadrado ou exato de Fisher. Nas variáveis contínuas, pelo teste t de Student não pareado se distribuição paramétrica dos dados ou Mann-Whitney se não paramétrica.

Usamos para análise dos dados o programa SPSS (SPSS Science Inc, Chicago, Illinois) versão 20.0 e nível de significância de 5%.

 

RESULTADOS

Foram analisados 27 pacientes, 17 com pioartrite no ombro e 10 no cotovelo. Quinze pacientes eram do sexo feminino (56%). A mediana foi de 46 anos (IIR 24,5; 61). Na figura 1 encontramos a distribuição dos pacientes nas diferentes faixas etárias.

Entre os pacientes avaliados, 21 (77%) tiveram infecção por via hematogênica, um (4%) após um procedimento de infiltração no ombro (inoculação direta) e cinco (19%) tiveram infecções ocasionados por infecção de partes moles ao redor das articulações do ombro e cotovelo (contiguidade).

Febre (temperatura corpórea acima de 37,8 ºC) foi encontrada em 19 pacientes (70%) no momento da admissão hospitalar. Em relação aos exames laboratoriais, 15 casos (56%) apresentavam leucocitose, definida como um contagem leucocitária maior do que 11 mil, e todos os pacientes tinham níveis de proteína C reativa (PCR) e velocidade de hemossedimentação (VHS) elevados. A coloração de Gram do líquido sinovial foi positiva para bactéria em apenas 12 casos (44%), entretanto 24 pacientes (89%) tiveram as culturas intraoperatórias positivas para algum tipo de microrganismo (tabela 1).

Tabela 1. Características clínicas e epidemiológicas da amostra
Articulação  
   Ombro 17 (63%)
   Cotovelo 10 (37%)
Sexo  
   Feminino 15 (56%)
   Masculino 12 (44%)
Idade (anos) 45,63 ± 22,60a46 (IIQ, 24,5-61)b
Etiologia  
   Hematogênica 21 (77%)
   Contiguidade 5 (19%)
   Inoculação direta 1 (4%)
Origem do paciente  
   Comunitária 18 (67%)
   Hospitalar 9 (33%)
Diagnóstico  
   Febre 19 (70%)
   Dor 27 (100%)
   Leucocitose 15(56%)
   Proteína C reativa e VHS elevados 27 (100%)
   Coloração de Gram 12 (44%)
   Cultura do líquido sinovial positiva 24 (89%)
   Intervalo para o tratamento cirúrgico (dias) 11,56 ± 12,36a6 (IIQ, 4-17)b
Doença articular prévia 9 (33%)
   Lupus eritematoso sistêmico 4 (14%)
   Artrite reumatóide 2 (7%)
   Osteoartrose 2 (7%)
   Artrite psoriática 1 (4%)
Imunossupressão 18 (67%)
   Uso de corticoides ou imunosupressores 5 (18%)
   Insuficiência renal crônica 6 (22%)
   Neoplasias 2 (7%)
   Síndrome da Imunodeficiência Adquirida 2 (7%)
   Cirrose hepática 2 (7%)
   Anemia falciforme 1 (4%)
Comorbidades 23 (85%)
   Hipertensão arterial sistêmica 9 (33%)
   Diabetes 4 (15%)
Complicações clínicas 14 (52%)
   Choque séptico 7 (26%)
   Insuficiência renal aguda 4 (15%)
   Insuficiência hepática 2 (7%)
   Infarto agudo do miocárdio 1 (4%)
   Pancreatite aguda 1 (4%)
   Complicações pulmonares 3 (11%)
   Morte 5 (19%)
Complicações ortopédicas 9(33%)
   Osteomielite crônica 4 (15%)
   Lesão osteocondral 2 (7%)
   Rigidez 4 (15%)
   Complicações da ferida cirúrgica 1 (4%)
   Osteoartrose 2 (7%)
Bactéria isolada 24 (89%)
   S. aureus 14 (52%)MRSA:4 MSSA:10
   S. epidermidis 2 (7%)
   Streptococcus ssp. 3 (11%)
   Neisseria gonorrhoeae 2 (7%)
   Salmonella ssp. 1 (4%)
   E. coli 1 (4%)
   Pseudomonas aeruginosa 1 (4%)
Tempo de internação hospitalar 33 ± 22,28a 21 (IIQ, 13,5-39)b
   Número de cirurgias ≥ 2 8 (30%)
   Mudança da antibioticoperapia empírica 9 (33%)

a Média.

b Mediana.

IIQ, intervalo interquartil; MRSA, S. aureus resistente à meticilina; MSSA, S. aureus sensível à meticilina; VHS, velocidade de hemossedimentação.

Doença articular prévia foi observada em nove pacientes (33%). Pelo menos uma comorbidade clínica foi encontrada em 23 casos (85%). Dezoito pacientes (67%) eram imunocomprometidos, insuficiência renal crônica dialítica e uso crônico de corticosteroides foram as causa mais comuns.

Staphylococcus aureus foi isolado em 14 casos (52%). Streptococcus spp. (11%) e Staphylococcus epidermidis (7%) foram os próximos agentes etiológicos mais prevalentes. Entre as infecções por Staphylococcus aureus, quatro (29%) foram causadas por bactérias resistentes à oxacilina na análise do antibiograma (MRSA).

Todos os pacientes foram submetidos a drenagem cirúrgica da pioartrite por método aberto. A via deltopeitoral foi a usada para todas as pioartrites do ombro. Nas infecções que acometeram o cotovelo, uma incisão lateral com abertura do intervalo entre os músculos ancôneo e extensor ulnar do carpo (via de Kocher modificada) foi feita.16 Em oito pacientes (30%) foram necessárias duas ou mais cirurgias. A mediana do tempo entre o aparecimento dos sintomas e a drenagem articular foi de seis dias (IIQ 4; 17).

Todos pacientes receberam antibioticoterapia empírica para tratamento até o resultado final das culturas intraoperatórias, seguidos por antibióticos específicos para as bactérias identificadas nessas culturas. Nove pacientes (33%) receberam oxacilina e gentamicina, 11 casos (41%) usaram oxacilina e ceftriaxone e seis (22%) pacientes que estavam hospitalizados por mais de 72 horas por outras doenças receberam vancomicina e cefepime.

Quatorze pacientes (52%) tiveram pelo menos uma complicação clínica e cinco foram a óbito (19%). Nove pacientes (33%) tiveram alguma complicação ortopédica durante o período de seguimento. O tempo de seguimento médio entre os pacientes sobreviventes foi de 5,31 ± 2,14 anos.

A análise estatística univariada mostrou que o tempo entre o início dos sintomas e o tratamento cirúrgico foi significativamente maior nos pacientes com complicações ortopédicas (p = 0,020). Esse grupo de pacientes também teve maior número de cirurgias para tratamento definitivo da infecção, 56% com dois ou mais procedimentos. Somente 17% dos pacientes sem complicações ortopédicas tiveram duas ou mais cirurgias (p = 0,072) (tabela 2).

Tabela 2. Fatores prognósticos para as complicações ortopédicas
  Complicações ortopédicas    
  Sim Não p
Articulação      
   Ombro 5 (56%) 12 (67%) 0,683
   Cotovelo 4 (44%) 6 (33%)  
Sexo      
   Feminino 3 (33%) 9 (50%) 0,684
   Masculino 6 (67%) 9 (50%)  
Idade (anos) 39 (IIQ, 25-60) 46,5 (IIQ, 24,25-64,75) 0,896
Etiologia      
   Hematogênica 5 (56%) 16 (89%) 0,132
   Não hematogênica 4 (44%) 2 (11%)  
Origem do paciente      
   Comunitária 5 (56%) 13 (72%) 0,667
   Hospitalar 4 (44%) 5 (28%)  
Diagnóstico      
   Febre 7 (78%) 12 (67%) 0,657
   Dor 9 (100%) 18 (100%) > 0,999
   Leucocitose 3 (33%) 12 (67%) 0,217
   Proteína C reativa e VHS elevados 9 (100%) 18 (100%) > 0,999
   Coloração de Gram 3 (33%) 9 (50%) 0,683
   Cultura do líquido sinovial positiva 8 (89%) 16 (89%) > 0,999
   Intervalo para o tratamento cirúrgico (dias) 17 (IIQ, 10-20) 5 (IIQ, 3,25-7,5) 0,0193
Doença articular prévia 4 (44%) 5 (28%) 0,667
Imunossupressão 7 (78%) 11 (61%) 0,667
Comorbidades 7 (78%) 16 (89%) 0,582
   Hipertensão arterial sistêmica 3 (33%) 6 (33%) > 0,999
   Diabetes 2 (22%) 2 (11%) 0,582
Complicações clínicas 5 (56%) 9 (50%) > 0,999
Bactéria isolada      
   Outras (inclui S.aureus sensível à meticilina) 6 (75%) 12 (75%) > 0,999
   Resistante à oxacillina 2 (25%) 4 (25%)  
Tempo de internação hospitalar 32 (IIQ, 10-40) 19,5 (IIQ, 14,25-37,25) 0,936
Número de cirurgias ≥2 5 (56%) 3 (17%) 0,072
Mudança da antibioticoperapia empírica 2 (22%) 7 (39%) 0,667

IIQ, intervalo interquartil; VHS, velocidade de hemossedimentação.

Em relação ao desenvolvimento de complicações clínicas, leucocitose no momento da primeira avaliação hospitalar (p = 0,021) e a presença de pelo menos uma comorbidade (p = 0,041) estiveram correlacionadas com o desenvolvimento dessas complicações (tabela 3). O tempo de internação foi significativamente maior nos pacientes com complicações clínicas (p = 0,003), com mediana de 38 dias (IIQ 22,75; 50;75).

Tabela 3. Fatores prognósticos para as complicações clínicas
  Complicações clínicas    
  Sim Não p
Articulação      
   Ombro 10 (71%) 7 (54%) 0,440
   Cotovelo 4 (29%) 6 (46%)  
Sexo      
   Feminino 7 (50%) 5 (38%) 0,704
   Masculino 7 (50%) 8 (62%)  
Idade (anos) 43 (IIQ, 24-59.5) 46 (IIQ, 25-61) 0,719
Etiologia      
   Hematogênica 11 (79%) 10 (77%) > 0,999
   Não hematogênica 3 (21%) 3 (23%)  
Origem do paciente      
   Comunitária 8 (79%) 10 (85%) 0,420
   Hospitalar 6 (21%) 3 (15%)  
Diagnóstico      
   Febre 11 (79%) 8 (62%) 0,420
   Dor 14 (100%) 13 (100%) > 0,999
   Leucocitose 11 (79%) 4 (31%) 0,021
   Proteína C reativa e VHS elevados 14 (100%) 13 (100%) > 0,999
   Coloração de Gram 5 (36%) 7 (54%) 0,449
   Cultura do líquido sinovial positiva 11 (79%) 13 (100%) 0,222
   Intervalo para o tratamento cirúrgico (dias) 5,5 (IIQ, 4-16.5) 7 (IIQ, 4-20) 0,881
Doença articular prévia 5 (36%) 4 (30%) > 0,999
Imunossupressão 10 (71%) 8 (62%) 0,695
Comorbidades 14 (100%) 9 (69%) 0,041
   Hipertensão arterial sistêmica 6 (43%) 3 (23%) 0,420
   Diabetes 4 (29%) 0 (0%) 0,098
Complicações ortopédicas 3 (21%) 5 (38%) 0,417
Bactéria isolada      
   Outras (inclui S.aureus sensível à meticilina) 10 (71%) 11 (85%) 0,648
   Resistante à oxacillina 4 (29%) 2 (15%)  
Tempo de internação hospitalar 38 (IIQ, 22,75-50,75) 13 (IIQ, 10-18) 0,003
Número de cirurgias ≥ 2 4 (29%) 4 (31%) > 0,999
Mudança da antibioticoperapia empírica 8 (57%) 1 (8%) 0,013

IIQ, intervalo interquartil;VHS, velocidade de hemossedimentação.

 

DISCUSSÃO

A artrite séptica é menos frequente no ombro e no cotovelo do que no joelho ou quadril.2,17 Apresentamos a avaliação clínica e epidemiológica de 27 casos. A mediana foi de 46 anos, inferior à maioria dos estudos,5,8-11 que reportam média superior a 60 anos. Entretanto, populações com idade semelhante à nossa já foram descritas por outros autores.4,12 Nossa casuística evidenciou que 67% dos pacientes apresentavam imunossupressão, 33% doença articular prévia e 85% alguma comorbidade. Diversos autores demonstraram a associação com a artrite séptica, em relação ao comprometimento do sistema imunológico,5,11 comorbidades8,10,12 e afecção articular prévia (osteoartrose, artrite reumatóide, entre outras).2,18 A leucocitose esteve presente em 56% dos casos, valor semelhante ao descrito por outros autores, com variação de 50 a 68%.2,10,12 A febre, por sua vez, foi observada em 70% dos pacientes. Relatos apontam uma prevalência de 42 a 83%.2,9,10,17 VHS e PCR apresentaram alteração na totalidade dos casos de nossa série. Esses dados são compatíveis com os descritos por outros autores.10,12 Duncan e Sperling,9 embora mostrem a alteração do VHS na maioria dos pacientes (78%), demonstram que em alguns casos o exame pode estar normal.

Entre os 27 pacientes do nosso estudo, em 24 (89%) a cultura do líquido sinovial identificou o agente etiológico. Outros autores descrevem, de modo semelhante, a identificação da bactéria responsável em 82 a 95% dos casos.1,2,5,8,9 A coloração de Gram foi positiva para identificação do agente etiológico em 44% dos casos, de acordo com o reportado por Weston et al.2 O principal patógeno em nossa série foi o Staphylococcus aureus, acometeu 52% dos pacientes. O perfil microbiano evidenciado é condizente com os demais artigos, nos quais essa bactéria é responsável por 42 a 77% das infecções.1,4-6,8,10-13,17-20 Apenas Duncan e Sperling9 demonstram um perfil diferente, Staphylococcus aureus e Steptococcus sp. Tiveram a mesma prevalência, 26%. Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) foi identificado em 15% dos nossos casos. Esse valor está dentro do espectro relatado por outros autores, de 8 a 20% dos casos de pioartrite do ombro ou cotovelo.5,8,12,21

Demonstramos que 33% dos pacientes apresentaram complicações ortopédicas durante o seguimento, as principais foram a osteomielite crônica (15%) e a rigidez articular (15%). Moon et al.4 relataram 27% dos pacientes com rigidez do cotovelo após o tratamento das pioartrites do cotovelo. Gelberman et al.19 demonstraram 46% dos pacientes com pioartrite do ombro que desenvolveram complicações ortopédicas. Observamos ainda que pacientes com complicações ortopédicas foram submetidos mais tardiamente ao tratamento cirúrgico. Sabe-se que a ocorrência de complicações é relacionada com a demora para o diagnóstico e o início do tratamento2,19 e que o tratamento precoce leva a melhores resultados clínicos6,8 e menor tempo de hospitalização.6

Em 30% dos casos foram necessários dois ou mais procedimentos cirúrgicos para o tratamento. A taxa de reoperação é semelhante a outros estudos, que relatam valores entre 19 e 32%.5,8,9,13,20 Recentemente, Jung et al.22 relataram uma taxa de reintervenção cirúrgica de apenas 2%. Os autores usaram curativos com pressão negativa após o debridamento aberto para a artrite séptica do ombro, técnica aparentemente promissora no tratamento dessas infecções.

As complicações ortopédicas são bem descritas e avaliadas nas publicações sobre pioartrite do ombro ou cotovelo,4,6,8,19 entretanto os artigos não relatam as complicações clínicas, que são a principal causa de mortalidade e aumento do tempo de hospitalização desses pacientes. Cinquenta e dois por cento dos pacientes desenvolveram alguma complicação clínica durante a internação, sepse (26%) foi a principal ocorrência. Os pacientes com complicações clínicas tiveram um tempo de internação cerca de 200% superior aos pacientes sem complicações.

Nosso estudo evidenciou uma taxa de mortalidade de 19% durante a internação. Esse valor é superior ao descrito nas séries que incluem pioartrites de diversas articulações, com 6 a 11,5% de óbitos.1,2 Nossos resultados são também superiores aos reportados nos estudos específicos sobre pioartrite do ombro, que variam de 5 a 17%.1,5,9,10 Entretanto, em um dos poucos estudos sobre a artrite séptica do cotovelo, van den Ende e Steinmann descrevem 50% de mortalidade.11 Esses dados, apesar da variação inerente às diversas populações estudadas, mostram o alto risco de evolução fatal das pioartrites.

Poucos estudos avaliam fatores prognósticos para resultados insatisfatórios ou complicações na artrite séptica.2,3,13 Nossos resultados demonstram que leucocitose no momento da admissão hospitalar e a presença de comorbidades clínicas são fatores associados à presença de complicações clínicas. Além disso, maior tempo entre o início dos sintomas e o tratamento cirúrgico correlacionou-se com complicações ortopédicas. Weston et al.2 observaram que idade superior a 65 anos e acometimento de múltiplas articulações ou do cotovelo são fatores independentes associados ao aumento da mortalidade, enquanto drenagem aberta associou-se a redução dessa complicação. Maneiro et al.3 descreveram que infecção por Staphylococcus aureus, endocardite e acometimento do quadril e pequenas articulações das mão e pés são fatores preditivos de falha no tratamento. Adicionalmente, idade, leucocitose, bacteremia e comorbidades são preditores de mortalidade. Hunter et al.13 observaram que pacientes com artropatia inflamatória, acometimento de grandes articulações, leucocitose, infecção por Staphylococcus aureus e diabetes apresentam risco aumentado de falha no tratamento. Acreditamos que a análise de fatores preditivos é importante para alertar o ortopedista que presta o atendimento inicial e com isso possibilitar uma redução do número de complicações.

Como limitações do nosso estudo, podemos citar o desenho retrospectivo. A amostra, embora pequena, é equivalente à de outros estudos já publicados sobre artrite séptica do ombro9,10,19,20 e do cotovelo.4,11 Por ser uma doença pouco frequente,1 séries de casos são importantes para adicionar conhecimento sobre o tema e contribuir para metanálises futuras. Incluímos no nosso estudo apenas pacientes submetidos a drenagem cirúrgica das pioartrites, não foram incluídos casos tratados apenas com antibioticoterapia, o que pode representar um viés de seleção. Podem ter sido selecionados apenas pacientes com casos mais graves e consequentemente com maior número de complicações. Uma outra crítica é a ausência de avaliação por escalas funcionais. Além disso, fizemos apenas uma análise univariada na busca dos fatores prognósticos para as complicações na artrite séptica. Uma análise multivariada permite o controle e a avaliação de diferentes critérios prognósticos e diminui o viés causado por fatores de confusão. Entretanto, nossa amostra não permitiu fazer essa análise. Contudo, o nosso estudo é o primeiro a avaliar e identificar possíveis fatores preditivos para complicações ortopédicas e clínicas em pacientes com pioartrite do ombro e cotovelo.

 

CONCLUSÃO

A pioartrite do ombro e cotovelo acomete preferencialmente indivíduos com comorbidades clínicas e/ou imunocomprometidos. O Staphylococcus aureus é o patógeno mais frequente em nosso meio. Complicações clínicas e ortopédicas são frequentes no tratamento dessas patologias e em 19% dos pacientes provocou o óbito. Leucocitose no momento da admissão hospitalar e a presença de comorbidades clínicas são fatores associados à presença de complicações clínicas. Maior tempo entre o início dos sintomas e o tratamento cirúrgico correlacionou-se com complicações ortopédicas.

 

AGRADECIMENTOS

Aos Drs. Camilo Partezani Helito e Bruno Akio Rodrigues Matsumura pela contribuição na aquisição dos dados deste trabalho.

 

REFERÊNCIAS

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Os autores declaram não haver conflitos de interesse.