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ASSOCIAÇÃO ENTRE BURSITE TROCANTÉRICA, OSTEOARTROSE E ARTROPLASTIA TOTAL DO QUADRIL

Carlos Roberto Schwartsmann, Felipe Loss, Leandro de Freitas Spinelli, Roque Furian, Marcelo Faria Silva, Júlia Mazzuchello Zanatta, Leonardo Carbonera Boschin, Ramiro Zilles Gonçalves, Anthony Kerbes Yepez



RESUMO

Objetivo:apresentar uma análise retrospectiva dos resultados clínico-funcionais e das complicações dos pacientes com artropatia do manguito rotador (AMR) submetidos à artro-plastia reversa do ombro. Métodos:foramselecionadospacientes comdiagnósticodeAMRassociadaàpseudoparalisia da elevação anterior submetidos à artroplastia reversa do ombro com seguimento mínimo de um ano. Resultados:foram coletadas informac ¸ões pré-operatórias, por meio do nosso Registro de Artroplastias do Ombro e Cotovelo, que consistiam em idade, sexo, lateralidade, história de procedimentos prévios, escores funcionais de Constant, além da amplitude de movimentos pré-operatórios, conforme protocolo da American Academy of Shoulder and Elbow Surgery (Ases). Com seguimento médio de 44 meses, 17 pacientes (94%) estavam satisfeitos com o resultado do procedimento. Conclusão:a artroplastia reversa no tratamento da AMR em pacientes com pseudoparalisia do ombro demonstrou-se efetiva na melhoria, com significância estatística, da amplitude de movimentos de flexão anterior e abdução. Porém, nesta série não houve melhoria da amplitude dos movimentos de rotação externa e interna. A artroplastia reversa é um proce-dimento que restabelece a função da articulação do ombro em pacientes que previamente não apresentavam possibilidades terapêuticas. Descritores - Artroplastia Ombro Artropatias Bainha rotadora Próteses e implantes

a Servic¸o de Ortopedia e Traumatologia do Complexo Hospitalar da Santa Casa de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil b Departamento de Fisioterapia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil c Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil


INTRODUÇÃO

Bursite trocantérica (BT) é o termo usado para descrever dor crônica, intermitente, acompanhada de desconforto à palpac¸ão da região lateral do quadril por causa do processo inflamatório das bursas. 1 As bursas são bolsas revestidas por sinovial com fluidos em seu interior, responsáveis pela diminuic¸ão do atrito entre os tendões e os músculos sobre as proeminências ósseas. 2 Entre todas as bursas descritas do quadril, a trocantéricaéamais frequentementeacometidapor inflamac ¸ão. A causa mais frequentemente associada à bursite trocantéricaéomicrotrauma repetitivo causadopelousoativo dos músculos que se inserem no grande trocanter, que resulta emmudanc¸as degenerativas dos tendões, dos músculos ou de tecidos fibrosos. 3

A artrose do quadril é uma das doenc¸as musculoesqueléti-cas que podem estar associadas à bursite trocantérica. Tanto em pacientes jovens como em idosos, as indicac¸ões da ATQ envolvempioriaprogressivadador comperdade func¸ão epio-ria da qualidade de vida decorrente da osteoartrose. 4AATQ é o procedimento ortopédico eletivo de maior sucesso e mais feito no mundo. 5 Apesar disso, não existem dados relevan-tes na literatura atual sobre a incidência de BT em pacientes submetidos a ATQ. Silva et al. 6 apresentam a única pesquisa de bursite pré-operatória, mas com poucas bursas coletadas e pacientes com artrite reumatoide e osteoartrose. 6 Entretanto, a incidência de BT no pós-operatório de ATQ é de aproxima-damente 4,6%. 7 O diagnóstico padrão-ouro para definir a BT é feitopelaavaliac ¸ãoanatomopatológicadabursa. Ferralaet al. 8 e Nikolajsen et al. 9 referem que em torno de 12% dos paci-entes após 12 a 18 meses do procedimento de ATQ ainda se encontravam com dor crônica para suas atividades diárias. 8,9

A presente pesquisa visa a avaliar a associac¸ão entre a BT e a osteoartrose no momento de feitura da ATQ primária.

Materiais e métodos

Estudo prospectivo com 62 pacientes operados sequencial-mente por osteoartrose primária do quadril e submetidos a ATQ. A bursectomia é um procedimento de rotina nas ATQs feitas em nosso servic ¸o.

As bursas foram coletadas durante as cirurgias e envia-das ao Laboratório de Patologia da instituic¸ão. Um patologista experiente analisou as bursas e identificou a presenc¸a ou não de bursite. As lâminas foram preparadas com cortes de 2,0 a 3,0 micra e coradas pela técnica de hematoxilina-eosina. Foi usado um microscópio óptico da marca Olympus, modelo BX40. O critério considerado para o diagnóstico da bursite foi a presenc¸a de espessamento capsular, com proliferac¸ão fibro-blástica e infiltrado inflamatório linfocitário, histiocitário ou neutrocitário, com hiperplasia sinovial.

Foram excluídos da amostra os pacientes com artrite reumatoide, epifisiólise proximal do fêmur, tumores locais, displasia do desenvolvimento do quadril, doenc¸a de Legg--Calvé-Perthes, fraturas prévias do quadril, hemofilia, osteo-necrose, sequela de artrite séptica e tuberculose e os que já haviam feito procedimentos prévios do quadril a ser operado ou submetidos a radioterapia. Todas as informac¸ões foram coletadas via prontuários e envolveramtambém dados demo-gráficos, epidemiológicos e clínicos, tais como idade, sexo e apresentac¸ões clínicas.

A análise estatística dos dados foi feita com o programa Excel para Windows, considerando-se estatística descritiva e distribuic¸ão de frequências.

Resultados

Foram observados 35 (56,5%) pacientes do sexo feminino e 27 (43,5%) do masculino. A idade média foi de 65 anos (desvio--padrão +/-11), variac ¸ãode41a85.

Em nove pacientes analisados (14,5%), foi confirmado o diagnóstico de bursite trocantérica. Entre esses, seis (66,7%) eram do sexo feminino e três (33,3%) do masculino. A figura 1 apresenta a histologia de uma bursa normal, com ampliac¸ão de 100×(A) e 200×(B). Observa-se a presenc ¸a de delgada membrana fibrosa revestida por células sinoviais. Na figura 2 é apresentada a histologia de uma bursa com o processo infla-matório (bursite crônica), emaumentosde100×(A) e200×(B), respectivamente. Nota-se que há espessamento fibroso da cápsula, com infiltrado inflamatório, predominantemente lin-focitário, além de hiperplasia sinovial.

Discussão

O tratamento da bursite trocantérica geralmente é conserva-dor e inclui medicamentos anti-inflamatórios não esteroides por até seis a oito semanas, além de gelo. Podem ser usados também infiltrac ¸ões, contraste térmico (gelo e calor), repouso e fisioterapia, com ultrassom no nível do trocanter maior e do triângulo femoral, associado ao alongamento muscular da banda iliotibial e do tendão do iliopsoas. 3,10 Na presente pesquisa, não houve o tratamento conservador de bursite previamente ao procedimento cirúrgico, já que os pacientes apresentavam osteoartrose do quadril sintomática e era indi-cada a ATQ. Nesse caso, visamos a estudar a epidemiologia da bursite trocantérica no momento de feitura da cirurgia do quadril.

A bursite trocantérica pode ser a manifestac¸ãodeuma doenc¸a secundária, como, por exemplo, aosteoartrosedoqua-dril. No caso da presente pesquisa, encontramos nove (14,5%) pacientes com bursite trocantérica silenciosa no momento de suas artroplastiasdoquadril, amaioriadelesdo sexo feminino (seis, 66,7%). Portanto, a grande maioria dos pacientes não apresentou bursite trocantérica no momento da feitura da ATQ primária.


Figura 1 - Bursa trocantérica normal corada pela técnica HE: (A) aumento de 100×; (B) aumento de 200×.


Figura 2 - Bursite crônica corada pela técnica HE: (A) aumento de 100×; (B) aumento de 200×.

Uma parcela dos cirurgiões de quadril não faz a ressecc¸ão da bursa durante o procedimento de ATQ. Isso poderia refletir nos índices de bursite pós-operatória observados na litera-tura. Farmer et al. avaliaram o tratamento da bursite após a feitura da artroplastia com o uso de corticoesteroides inje-táveis. Foram analisadas 689 artroplastias primárias no seu pós-operatório e observou-se uma incidência de 4,6%. 7

Este trabalho apresenta a incidênciadabursite trocantérica no momento da ATQ em pacientes com condic¸ões específicas - artrose primária. Apesar de não retratar a condic¸ão geral da populac¸ão submetida às artroplastias, uma vez que muitos pacientes apresentam artrose secundária (artrite reumatoide, epifisiólise proximal do fêmur, displasias, osteonecrose etc.), os dados encontrados nesta pesquisa justificam a ressecc¸ão das bursas durante o procedimento de artroplastia.

Conclusões

Dos pacientes submetidos àATQ (9/62) por osteoartrose, 14,5% apresentam bursite trocantérica silenciosa no momento das cirurgias do quadril. Dois terc¸os são do sexo feminino (66,7%).

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

REFERÊNCIAS

1. Alvarez-Nemegyei J, Canoso JJ. Evidence-based soft tissue rheumatology: III: trochanteric bursitis. J Clin Rheumatol. 2004;10(3):123-4.
2. Stedman TL, editor. Stedman: Dicionário médico. Traduc¸ão de Cláudia Lúcia Caetano de Araújo. 25 a ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1996.
3. Dani WS, Azevedo E. Bursite trocantérica. Rev Bras Med. 2006;7(1):2-5.
4. Shrader MW. Total hip arthroplasty and hip resurfacing arthroplasty in the very young patient. Orthop Clin North Am. 2012;43(3):359-67.
5. Pivec R, Johnson AJ, Mears SC, Mont MA. Hip Arthroplasty. Lancet. 2012;17;380(9855):1768-77.
6. Silva F, Adams T, Feinstein J, Arroyo RA. Trochanteric bursitis: refuting the myth of inflammation. J Clin Rheumatol. 2008;14(2):82-6.
7. Farmer KW, Jones LC, Brownson KE, Khanuja HS, Hungerford MW. Trochanteric bursitis after total hip arthroplasty: incidence and evaluation of response to treatment. J Arthroplasty. 2010;25(2):208-12.
8. Ferrala P, Carla S, Fortina M, Scipio D, Riva A, Di Giacinlo S. Painful hip arthroplasty: definition. Clin Cases Miner Bone Metab. 2011;8(2):19-22.
9. Nikolajsen L, Brandsborg B, Lucht U, Jensen TS, Kehlet H. Chronic pain following total hip arthroplasty: a nationwide questionnaire study. Acta Anaesthesiol Scand. 2006;50(4):495-500.
10. Huber TA, Ortiz J. Bursite trocantérica. Rev Bras Ortop. 1992;27:723-8.