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AVALIAÇÃO DOS RESULTADOS DA TENODESE ARTROSCÓPICA DO BÍCEPS, UTILIZANDO-SE PARAFUSO DE INTERFERÊNCIA BIOABSORVÍVEL

SÉRGIO LUIZ CHECCHIA1, PEDRO DONEUX SANTOS4, ALBERTO NAOKI MIYAZAKI2, MARCELO FREGONEZE3, LUCIANA ANDRADE DA SILVA4, FLÁVIO SANTOS FERREIRA LEITE5, CAIO ZAMBONI5



RESUMO

Objetivo: Avaliar os resultados obtidos com a realização da tenodese da cabeça longa do bíceps (CLB) pela técnica artroscópica, com a utilização de parafuso de interferência bioabsorvível - biotenodese Arthrex®. Métodos: Entre março de 2004 e abril de 2005, 16 ombros de 16 pacientes foram submetidos a tenodese da CLB com essa técnica. O seguimento mínimo foi de 12 meses, com média de 19,5 meses. A idade variou de 32 a 69 anos, com média de 56,1 anos. Houve predomínio do sexo masculino em 75% dos casos. O membro dominante foi acometido em 62,5% dos pacientes. Foi encontrada lesão parcial da CLB em 75% dos pacientes e instabilidade em 25%. Houve associação com lesão do manguito rotador (LMR) em 93,75% dos casos. A avaliação clínica foi feita por meio dos critérios da University of California at Los Angeles (UCLA). Resultados: Observamos excelentes resultados em todos os casos. Não foi observado em nenhum caso sinal de retração do músculo bíceps (sinal do Popeye), caracterizando soltura da tenodese. Conclusão: A tenodese da CLB pela técnica artroscópica, com a utilização de parafuso de interferência bioabsorvível - biotenodese Arthrex® - mostrou-se uma técnica eficiente para o tratamento das alterações da CLB. Descritores - Articulação do ombro/cirurgia; Artroscopia/métodos; Parafusos ósseos; Tendões/cirurgia; Técnicas de sutura; Tendinopatia; Implantes absorvíveis.

Trabalho realizado no Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (DOT-FCMSCSP), Pavilhão "Fernandinho Simonsen". Diretor: Prof. Dr. Cláudio Santili.
1. Professor Adjunto e Chefe do Grupo de Ombro e Cotovelo da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.
2. Professor Assistente e Assistente do Grupo de Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia d da Faculdade Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.
3. Professor Assistente e Assistente do Grupo de Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.
4. Assistente do Grupo de Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.
5. Estagiário do Grupo de Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.
Endereço para correspondência: Rua Dr. Cesário Mota Júnior, 112 - 01220- 020 - São Paulo, SP. Tel./fax: (11)3222-6866.
E-mail: ombro@ombro.med.br

INTRODUÇÃO

As funções do tendão da cabeça longa do músculo bíceps braquial (CLB), na articulação do ombro, permanecem controversas. No entanto, é causa freqüente de dor(1-5).

As alterações da CLB podem ser classificadas em tendinites; instabilidades - subluxação ou luxação; e lesões - parcial ou total(6). A tendinopatia da CLB ocorre com maior freqüência associada a outras afecções, como as lesões do manguito rotador (LMR), impacto subacromial e artrose de ombro; e, mais raramente, de forma primária, podendo estar relacionada a alterações do sulco intertubercular(1,7-8).

Chen et al, em 2005, afirmaram que todos os casos com LMR acima de três meses de evolução possuem lesão da CLB associada(6). Murthi et al, em 2000, observaram que a incidência de lesão da CLB é diretamente proporcional ao tamanho da LMR(8). Para outros autores, nas LMR com acometimento do tendão do músculo subescapular, a lesão da CLB ocorre em até 97% dos casos(2,6,9).

Sethi et al, em 1999, indicaram o tratamento cirúrgico para os casos com lesões irreversíveis da CLB, considerando os seguintes critérios: tecido friável ou lesão em mais de 25% da espessura do tendão; redução em 25% da espessura do tendão; ou evidência de instabilidade do tendão - luxação ou subluxação no sulco intertubercular. Consideram ainda como uma indicação relativa ao tratamento cirúrgico os casos em que ocorrer persistência de dor após realização de acromioplastia, sendo atribuída a alterações da CLB(2).

As opções de tratamento cirúrgico permanecem assunto controverso na literatura. A tenotomia da CLB produz melhora da dor com pequeno déficit funcional(5,10-12), porém, há risco significativo de migração distal da CLB(12). Já a tenotomia associada a tenodese parece ter algumas vantagens sobre a tenotomia, que incluem a manutenção do comprimento e da tensão muscular, prevenção da atrofia, manutenção das forças de flexão e supinação do antebraço, além de eliminar a dor sem o risco da deformidade cosmética(2).

Gartsman et al, em 2000, realizaram a tenodese da CLB utilizando âncoras de fixação por via artroscópica(13). Boileau et al, em 2001, descreveram a tenodese da CLB com a utilização de parafuso de interferência canulado(14), enquanto que Klepps et al, em 2002, procederam à tenodese da CLB utilizando um parafuso de interferência canulado com tensionamento prévio realizado com a utilização de âncoras e passagem do tendão por um túnel ósseo(15).

O objetivo deste estudo é avaliar os resultados obtidos com a realização da tenodese da CLB pela técnica artroscópica, com a utilização de parafuso de interferência bioabsorvível - biotenodese Arthrex® - para o tratamento das alterações da CLB.

MÉTODOS

No período de março de 2004 a abril de 2005 foram operados e reavaliados 16 ombros de 16 pacientes submetidos a tenodese da CLB, com a utilização de parafuso de interferência bioabsorvível - biotenodese Arthrex® - por via artroscópica. As cirurgias foram realizadas pelo Grupo de Cirurgia de Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo - Pavilhão "Fernandinho Simonsen".

O tempo de seguimento variou de 12 a 25 meses, com média de 19,5 meses. A média de idade foi de 56,1 anos, variando de 32 a 69 anos, com predomínio do sexo masculino em 75% dos casos (12 pacientes). O membro dominante foi acometido em 10 pacientes (62,5%) (tabela 1).

O tempo decorrido do início da sintomatologia até a realização do procedimento cirúrgico variou de um a 60 meses, com média de 18,8 meses. Em 14 pacientes (87,5%) foi realizado tratamento prévio conservador com fisioterapia, sendo associado à infiltração local com corticosteróide em dois casos (12,5%). Dois pacientes não foram submetidos a nenhum tipo de tratamento antes da realização da cirurgia.

Em todos os pacientes realizamos, durante a avaliação préoperatória, exame de ressonância magnética do ombro acometido. Observou-se, com esse exame, que 15 pacientes (93,75%) apresentavam LMR e, em oito (50%), havia alterações sugestivas de tendinopatia da CLB, sendo dois casos de instabilidade da CLB (12,5%) (tabela 1).

Os pacientes foram tratados de acordo com os critérios propostos por Sethi et al, em 1999(2). Foi encontrada lesão parcial da CLB em 12 pacientes (75%); um deles apresentava uma lesão do tipo SLAP IV(16) e quatro, instabilidade da CLB (25%), sendo dois casos de subluxação e dois de luxação (figuras 1 e 2) (tabela 1).

Dos 15 pacientes com LMR, nove possuíam lesão isolada do tendão do músculo supra-espinal (56,25%); dois, lesão isolada do tendão do músculo subescapular (12,5%); um, lesão associada dos tendões dos músculos supra-espinal e subescapular (6,25%); e três, lesão associada dos tendões dos músculos supra-espinal, subescapular e infra-espinal (18,75%). A sutura da LMR foi realizada em todos os pacientes. Em 13 pacientes foi realizada acromioplastia (tabela 1).

A lesão da CLB foi encontrada de forma isolada, sem nenhum tipo de lesão associada, em um paciente (6,25%) (tabela 1).

Dor na articulação acromioclavicular foi encontrada em seis pacientes (37,5%) e foi tratada pela ressecção da extremidade distal da clavícula (tabela 1).

O tempo de imobilização no período pós-operatório foi de seis semanas em todos casos.

O método escolhido para avaliação dos pacientes no período pós-operatório baseou-se nos critérios da UCLA (University of California at Los Angeles)(17). A medida da amplitude articular do ombro foi realizada pelos parâmetros descritos pela American Academy of Orthopaedic Surgeons(18).

Técnica cirúrgica

A cirurgia foi realizada em todos os casos com o paciente em posição "cadeira de praia". Através do portal posterior, é introduzida a óptica para realização da inspeção articular do ombro. A tenotomia da CLB é realizada junto à sua inserção no lábio glenoidal e o tendão da CLB é tracionado por um portal ântero-lateral acessório, com o auxílio de um ponto de reparo; realiza-se uma sutura do tipo Krakov em sua extremidade distal (figura 3). Nesse momento, é medido o diâmetro do tendão com um instrumento apropriado (figura 4). A óptica é introduzida no espaço subacromial e um portal lateral acessório é realizado para o tratamento das lesões associadas. O sulco intertubercular é o local escolhido para realização da tenodese.

Esta é realizada após perfuração do sulco intertubercular com broca de diâmetro determinado pela medida equivalente ao diâmetro do tendão (figuras 5 e 6). Com um instrumento apropriado, o tendão é inserido nesse orifício ósseo e fixado pela colocação do parafuso de interferência bioabsorvível - biotenodese Arthrex®. Os parafusos variaram de tamanho, tendo sido utilizados os seguintes: 7 x 23mm em 11 pacientes; 8 x 23mm em quatro e 9 x 23mm em um (figuras 7 a 11).

RESULTADOS

O seguimento pós-operatório médio foi de 19,5 meses, variando de 12 a 25 meses (tabela 1).

Utilizando o método de avaliação da escala UCLA(17), observamos excelentes resultados em todos os casos, com média de 34,5 pontos (tabela 1). Não foi observado em nenhum caso sinal de retração do músculo bíceps (sinal do "Popeye"), caracterizando soltura da tenodese. Todos os pacientes encontravam-se satisfeitos com os resultados do tratamento cirúrgico.

DISCUSSÃO

Os resultados encontrados na literatura são bastante conflitantes com relação à melhor técnica cirúrgica para o tratamento das tendinopatias da CLB(2-5,10-12,19-21).

A tenodese da CLB é geralmente recomendada para pacientes jovens - abaixo de 55 anos de idade(2-4), principalmente para indivíduos magros(2), e para pacientes contrários a uma possível deformidade cosmética e disfunção produzidas pela migração distal que pode ocorrer com a tenotomia(12,21). Já a tenotomia, sem a tenodese, é mais indicada para os pacientes mais idosos e sedentários, existindo sempre a possibilidade de deformidade cosmética pela retração da CLB(2,5).

Autores concordam que a tenotomia possa obter melhora adequada do quadro álgico com pequeno déficit funcional(3,5,10-12). Quando comparada com a tenodese, a tenotomia sem tenodese apresenta risco significativo de migração distal da CLB(12). É descrito que os casos submetidos à tenotomia para tratamento da tendinopatia crônica da CLB - sintomatologia superior a três meses - apresentam incidência de até 54% de migração distal da CLB (sinal do "Popeye")(5,11-12,19-20).

Berlemann et al observaram que houve ascensão radiográfica da cabeça do úmero de 0,1 a 0,8cm (média de 0,43cm) após a realização da tenodese em 14 ombros; no entanto, essa migração não afetou o resultado final em longo prazo (média de sete anos)(7).

Concordamos com Sethi et al quando afirmam que a tenodese apresenta vantagens sobre a tenotomia, tais como a manutenção do comprimento e da tensão muscular, prevenção da atrofia, manutenção das forças de flexão e supinação do antebraço, além de eliminar a dor sem o risco da deformidade cosmética(2).

Todos os pacientes deste estudo ficaram satisfeitos com o tratamento cirúrgico realizado, obtendo melhora da sintomatologia inicial, sem apresentar alteração estética com retração do músculo bíceps e sem alteração da força de elevação do membro.

CONCLUSÃO

A realização da tenodese da CLB pela técnica artroscópica, com a utilização de parafuso de interferência bioabsorvível - biotenodese Arthrex® - mostrou-se técnica eficiente para o tratamento das alterações da CLB.


REFERÊNCIAS

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